Entre todos os genes já associados ao risco de obesidade, um se destaca como o de maior influência já identificada em estudos de larga escala: o gene FTO, associado à massa gorda e obesidade. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do Método LP, explica que carregar a variante de risco desse gene realmente aumenta a probabilidade de desenvolver obesidade ao longo da vida, mas a ciência mais recente revela algo igualmente importante: essa predisposição genética está longe de ser um destino inevitável.
Pessoas que carregam duas cópias da variante de risco desse gene pesam, em média, três quilos a mais e têm risco setenta por cento maior de desenvolver obesidade, comparadas a quem não carrega nenhuma cópia dessa variante específica. Diante desse dado, seria fácil concluir que a genética determina irreversivelmente o destino metabólico dessas pessoas, mas Lucas Peralles reforça que a própria pesquisa científica sobre o tema conta uma história bem mais esperançosa.
A atividade física realmente consegue neutralizar parte desse risco genético?
Uma meta-análise reunindo dados de mais de duzentas e dezoito mil pessoas adultas e quase vinte mil crianças e adolescentes investigou justamente essa questão, buscando confirmar se a atividade física seria capaz de atenuar o efeito desse gene sobre o risco de obesidade. O resultado foi claro: a associação entre a variante de risco e a obesidade foi reduzida em aproximadamente vinte e sete por cento entre adultos fisicamente ativos, comparados a adultos sedentários que carregavam a mesma variante genética.
Segundo Lucas Peralles, esse tipo de achado representa uma das demonstrações mais robustas já documentadas de que estilo de vida pode modular significativamente a expressão de um risco genético estabelecido, mesmo quando esse risco é considerado o mais forte já identificado para obesidade em estudos de associação genômica ampla. Esse dado deveria ser comunicado com muito mais força a pacientes que se sentem geneticamente condenados ao excesso de peso, já que a mensagem científica real é bem mais encorajadora do que costuma parecer.
Existe algum mecanismo que explique por que esse gene aumenta o risco de obesidade?
Pesquisas sugerem que o gene FTO exerce papel central na regulação da ingestão alimentar, e não apenas no metabolismo energético isoladamente. Estudos com pessoas homozigotas para a variante de risco mostraram redução da saciedade, maior tendência a escolhas alimentares menos saudáveis e maior consumo energético total, sugerindo que esse gene influencia diretamente o comportamento alimentar através de vias neurais relacionadas ao apetite, e não apenas a velocidade do metabolismo basal.

Esse mecanismo comportamental ajuda a explicar por que a atividade física consegue atenuar esse risco de forma tão relevante: o exercício regular parece contrabalançar justamente essa tendência a maior ingestão calórica e menor saciedade, criando um equilíbrio energético mais favorável mesmo diante da predisposição genética. Lucas Peralles evidencia que compreender esse mecanismo específico, e não apenas a associação estatística isolada, ajuda a explicar por que a recomendação de atividade física ganha peso ainda maior para pessoas com histórico familiar de obesidade.
Esse efeito protetor da atividade física aparece igualmente em qualquer faixa etária?
Curiosamente, não. A mesma meta-análise que encontrou atenuação relevante do risco em adultos não conseguiu confirmar esse mesmo efeito protetor em crianças e adolescentes, sugerindo que a interação entre atividade física e esse gene específico pode depender de fatores relacionados à maturidade metabólica ou a diferenças na forma como a atividade física é praticada e mensurada nessa faixa etária mais jovem.
Esse detalhe é importante, dado que mostra que a ciência ainda tem lacunas relevantes a esclarecer sobre exatamente quando e como essa interação entre genética e estilo de vida se manifesta ao longo da vida. Isso não invalida a importância da atividade física desde a infância, frisa Lucas Peralles, mas indica que os mecanismos de proteção contra o risco genético provavelmente se consolidam de forma mais evidente na vida adulta.
O que essa descoberta muda na forma de encarar predisposição genética à obesidade?
Reconhecer que a atividade física reduz em quase um terço o impacto do gene de obesidade mais estudado até hoje ajuda a desconstruir a ideia fatalista de que histórico familiar de obesidade condena automaticamente qualquer pessoa a repetir o mesmo padrão. Isso reposiciona o estilo de vida como ferramenta poderosa, mesmo diante de predisposições genéticas reais e bem documentadas.
Por fim, Lucas Peralles salienta essa é uma mensagem essencial para qualquer pessoa que já ouviu de familiares: “isso é genético, não tem o que fazer” como explicação definitiva para o próprio peso corporal. Entender que genética estabelece predisposição, não determinismo absoluto, e que a atividade física é uma das ferramentas mais bem documentadas para modular esse risco é um conhecimento capaz de transformar a relação de muitas pessoas com a própria história familiar de obesidade.

