Levantamento aponta cerca de 388 milhões de cristãos perseguidos ou discriminados no mundo, com aumento nos casos de violência física registrados no último ano.
Quando o assunto é perseguição religiosa, é comum surgir a dúvida sobre se esse tipo de violência realmente vem crescendo ou se é apenas uma percepção amplificada por redes sociais e discursos políticos. A Lista Mundial da Perseguição 2026, elaborada pela organização Portas Abertas, tenta responder a essa pergunta com dados concretos. Segundo o levantamento, cerca de 388 milhões de cristãos em todo o mundo enfrentam perseguição ou discriminação por causa da fé em Jesus. O relatório aponta uma queda no número de ataques a propriedades religiosas, que caiu de 7.679 para 3.632 casos, mas um aumento significativo nos índices de violência contra a pessoa, incluindo agressões físicas, mentais e sexuais. Entre os números divulgados estão 4.849 cristãos mortos por causa da fé, ante 4.476 registrados no ano anterior, além de 67.843 casos de abuso físico ou mental, número que também cresceu em relação ao período anterior.
O que os números da Lista Mundial da Perseguição revelam
Os dados do levantamento mostram um padrão que chama atenção de analistas que acompanham o tema: enquanto ataques a estruturas físicas, como igrejas e templos, diminuíram, a violência direcionada às pessoas aumentou de forma expressiva. Os casos de estupro ou assédio sexual contra cristãos subiram de 3.123 para 4.055, e os casamentos forçados com pessoas não cristãs passaram de 821 para 1.147 registros. Já o número de cristãos condenados judicialmente por causa da fé chegou a 1.298, também em alta em relação ao ano anterior. Esses números sugerem que, em algumas regiões, a perseguição tem se deslocado de ataques a instituições religiosas para formas de violência mais diretamente voltadas a indivíduos, o que torna esse tipo de violação mais difícil de monitorar e denunciar.
O relatório também aponta um salto expressivo no número de cristãos forçados a fugir ou se esconder dentro do próprio país, que chegou a 201.427 pessoas, enquanto os que precisaram deixar o país de origem somam 22.702, número menor do que no período anterior, mas ainda representando milhares de famílias desenraizadas. Segundo a organização responsável pelo levantamento, essas violações se concentram principalmente em regiões da África Subsaariana e da Ásia, áreas historicamente marcadas por conflitos religiosos e políticos que afetam comunidades cristãs minoritárias. A leitura combinada desses indicadores ajuda a entender por que a percepção de aumento na perseguição religiosa, mencionada por diferentes veículos cristãos ao longo do ano, encontra respaldo em dados de organizações que acompanham o tema há décadas.
Como interpretar esses dados no contexto brasileiro
No Brasil, a discussão sobre perseguição religiosa segue um caminho distinto do retrato global. Dados do Disque 100, canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, mostram que o país registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, mantendo uma tendência já observada em anos anteriores, quando 2.472 violações foram contabilizadas em 2024. Entre as religiões identificadas nessas denúncias, as tradições de matriz africana concentram o maior número de registros, com a Umbanda somando 228 ocorrências e o Candomblé, 161. As denúncias envolvendo pessoas de religião evangélica somam 72 casos no mesmo período, um número bem menor em proporção ao total de fiéis evangélicos no país.
Essa diferença de contexto é importante para quem tenta comparar a situação de cristãos perseguidos em países como Nicarágua, China ou Sudão, mencionados em relatórios internacionais, com a realidade vivida por evangélicos no Brasil. Enquanto o cenário global registrado pela Lista Mundial da Perseguição envolve violência física extrema, prisões e deslocamento forçado, o debate brasileiro sobre o tema costuma girar em torno de casos pontuais, disputas judiciais e discussões legislativas, sem o mesmo grau de violência sistemática relatado em outras regiões do mundo. Compreender essa distinção ajuda a situar com mais precisão as informações que circulam sobre o assunto, tanto em veículos internacionais quanto em debates locais.
Ao reunir dados de mais de 70 países, a Lista Mundial da Perseguição 2026 oferece um retrato que ajuda a separar percepção de fato quando o assunto é violência contra cristãos. Os números mostram que, embora ataques a propriedades religiosas tenham diminuído, a violência voltada diretamente às pessoas cresceu, um dado que merece atenção de quem acompanha o tema tanto por interesse religioso quanto por preocupação com direitos humanos de forma mais ampla.
Fontes consultadas:
https://www.ultimato.com.br/conteudo/lista-mundial-da-perseguicao-2026-388-milhoes-de-cristaos-em-todo-o-mundo-sao-perseguidos-ou-discriminados-por-sua-fe-em-jesus
https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/intolerancia-religiosa-segue-como-violacao-recorrente-em-2026-apontam-dados-do-disque-100

