Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com a Quaest, aponta que a maioria dos brasileiros rejeita o uso direto de igrejas e outros espaços religiosos para atividades eleitorais. Os dados mostram resistência à indicação de voto por líderes religiosos, à discussão política durante cultos e missas e à presença de campanhas dentro dos templos.
O levantamento Religião e Vida Pública no Brasil ouviu presencialmente 15 mil pessoas com 16 anos ou mais, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. As entrevistas foram realizadas em 412 municípios de todas as regiões do país, incluindo as 27 capitais e o Distrito Federal. A pesquisa foi divulgada em setembro, e os resultados foram noticiados pela Agência Brasil.
Maioria rejeita campanha dentro dos templos
Entre os entrevistados, 83% afirmaram ser contrários à indicação de voto por pastores e padres. O percentual de rejeição chega a 82% quando a pergunta trata de discussões políticas durante cultos e missas. Já a realização de campanhas eleitorais dentro de igrejas e outros templos religiosos é rejeitada por 90% dos participantes.
Os números indicam uma distinção importante entre a presença da religião no debate público e a transformação do culto em espaço de propaganda eleitoral. Fiéis podem considerar valores cristãos, convicções pessoais e experiências comunitárias ao formar suas opiniões sobre a sociedade, mas isso não significa necessariamente aceitar que uma liderança indique diretamente em quem votar.
Segundo a pesquisa, os evangélicos representam 29% da população entrevistada. O grupo reúne diferentes perfis, incluindo pentecostais, protestantes e pessoas que se identificam como evangélicas, mas não mantêm vínculo institucional com uma igreja específica. Essa diversidade ajuda a evitar a interpretação de que exista uma posição política única ou um comportamento eleitoral uniforme entre os cristãos.
Pesquisa não prevê o voto nas eleições de 2026
Um dos cuidados necessários na leitura dos resultados é compreender o que o levantamento mede. A pesquisa não apresenta intenção de voto para as eleições de 2026 nem indica qual candidato teria maior apoio entre os evangélicos. As perguntas sobre a influência de lideranças religiosas analisam principalmente experiências e percepções relacionadas à eleição presidencial de 2022.
Essa diferença é relevante porque percentuais de rejeição ao uso eleitoral das igrejas não podem ser tratados como uma previsão do comportamento dos eleitores no pleito atual. O estudo aborda a relação entre religião, vida pública e participação social, e não funciona como pesquisa eleitoral de preferência ou estimativa de resultado.
De acordo com as informações divulgadas pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), o levantamento foi estruturado para observar a pluralidade religiosa e as formas pelas quais a fé se relaciona com diferentes dimensões da vida brasileira. A participação dos evangélicos aparece, portanto, dentro de um cenário mais amplo, que inclui outros grupos religiosos e pessoas sem religião.
Fé, cidadania e autonomia dos fiéis
Os resultados reforçam a importância de diferenciar a participação cristã na sociedade do uso dos espaços de culto para propaganda partidária ou eleitoral. Igrejas podem atuar em ações comunitárias, debates sobre valores, defesa da dignidade humana e mobilização social. No entanto, os dados sugerem que muitos fiéis desejam preservar sua autonomia para avaliar propostas e candidatos.
Essa autonomia não elimina a influência que a religião pode exercer sobre valores, identidades e relações comunitárias. A fé continua presente na maneira como muitas pessoas interpretam temas como família, justiça, solidariedade e responsabilidade social. O que aparece na pesquisa é a rejeição majoritária à imposição ou à instrumentalização eleitoral desses vínculos dentro do ambiente religioso.
A pesquisa também contribui para uma cobertura mais cuidadosa sobre o chamado voto evangélico. Em vez de tratar os cristãos como um bloco político homogêneo, os dados apontam para um campo plural, formado por diferentes denominações, trajetórias e compreensões sobre o papel da igreja na vida pública.
Para o debate sobre eleições e religião no Brasil, a principal mensagem do levantamento é que a presença dos evangélicos na sociedade não deve ser confundida automaticamente com apoio ao uso eleitoral dos templos. A rejeição expressiva a campanhas, discussões políticas durante o culto e indicações diretas de voto mostra que a relação entre fé e cidadania é mais complexa do que a disputa por influência sobre comunidades religiosas.

